Um “fazedor” de teatro

O menino queria ser artista. Largou a lavoura de café e o trabalho no campo para correr atrás do seu sonho. De Nova Fátima, norte do Paraná, para Curitiba. Longe de casa, mais perto do sonho.

Vinte e cinco anos depois, Isidoro Diniz, ator e produtor, é um dos grandes destaques do teatro paranaense. Ao comemorar esta data, em 2004, ele pára e olha para trás, revendo sua carreira.

Depois de vinte e cinco anos, dezenas de produções, grandes sucessos de público e crítica, muita coisa mudou, nos palcos, no Brasil, no mundo.

Mas algo teima em não mudar. Sólida convicção. A motivação que fez o menino deixar o campo e o levou a descobrir um mundo novo, bem diferente de tudo que tinha vivido, parece a mesma.

“O que me move, ainda, é acreditar que posso descobrir alguma coisa nova no teatro.
O teatro não se esgota. Acredito que ainda podemos descobrir e proporcionar novas descobertas e sensações para o público. Este é meu Norte, meu elo, aquilo no que ainda acredito. O resto... O resto são adereços”, conta.

Isidoro deixou Nova Fátima em 1979, aos 21 anos. Sua escola de teatro foi o próprio teatro. No mesmo ano estreava nos palcos, com o grupo de teatro amador Cidade Sorriso, dirigido por Toni Pereira. O texto era O Consertador de Brinquedos. O papel, de um palhacinho que protagonizava a história, voltada ao público infantil. A data ele guarda de cor: 12 de agosto de 1979.

“Fiquei muito assustado com a platéia. Não tive escola. Minha escola foi desenvolver o trabalho de criação com este grupo. Criávamos desde os figurinos até o cenário”, recorda. A peça ficou um ano em cartaz e deu início a uma longa trajetória dedicada ao teatro infantil.

A partir deste primeiro trabalho, deuses e demônios do teatro conquistaram definitivamente mais uma alma. Ainda no formato teatro circo, Diniz participou de textos clássicos deste formato como “Marido Número Cinco” e “Seu Último Natal”.

Com o trabalho em parceria com o grupo Gestos, formado de um núcleo teatral inspirado por um curso ministrado por Denise Stoklos, o ator e produtor caiu na estrada. A montagem de “Norigama”, com direção de Borges de Garuva, integrou o projeto Mambemba, contraposto ao conhecido Mambembão, da Funarte. A iniciativa, apoiada pelas secretarias de cultura dos três estados do sul, fez com que viajasse pelo interior do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, em 1981.

Em 1982 Diniz entrou para a companhia de Giovani Cesconeto. Juntos, fizeram vários trabalhos importantes, sempre dedicados ao teatro infantil. Entre eles, “Chapeuzinho Vermelho”, que ficou seis meses em cartaz no Teatro Guaíra, primeiro no Guairinha e depois no grande auditório, Guairão. Nestes tempos, alcançavam a média de 60 mil expectadores num semestre.

Concluído o ciclo desta parceria, em 1986 Diniz funda sua própria produtora, a DKV Produções, em parceria com Regina Vogue, Maurício Vogue e Marisa Kenedy.

“Queríamos fazer um trabalho com a nossa cara, priorizar idéias nossas como atores. Queríamos dirigir, pesquisar formas, investigar a criação. Ter o domínio completo da produção”.

A estréia da DKV foi com “Chuva de Cores”, primeiro texto de Nivaldo Dutra. Começava ali uma carreira de espetáculos fantásticos. O próximo espetáculo foi “Saltimbancos”, musical de Chico Buarque com direção de Paulinho Maia. Chegaram a apresentar este espetáculo num estádio de futebol, em Blumenau.

A carreira de sucessos prosseguiu com “A Fada Que Tinha Idéias”, de 1989, quando Isidoro assinou toda a produção.

Num momento que a companhia começava a decolar, a velha inquietação manifestou-se. “Cheio de tudo”, Isidoro resolveu viajar, ganhar o mundo.

“Queria fugir do teatro, de mim mesmo, dar um tempo...”

Destino: Paris. Acompanhado por um grupo de amigos, cujos alguns integrantes permanecem por lá até hoje, desembarcou na França disposto a experimentar.

Fez teatro de rua, mímica. Cantou em bares, fez shows imitando Maria Bethânia, atuou em boates. Lá, tão longe, “descobriu” que era latino e conheceu o racismo.

Um ano depois, cansou-se da rotina de imigrante latino na Europa.

Pelo telefone, veio o chamado: os velhos parceiros da DKV tinham um projeto ótimo em mãos, uma montagem de “Alice no País das Maravilhas”. A peça tinha direção de Paulinho Maia, outro parceiro freqüente na carreira.

“Foi uma montagem moderníssima para a época. Sempre norteamos nosso trabalho pela inovação. Sempre tivemos esta coisa de investigar a dramaturgia, as possibilidades do texto. Buscávamos um caminho alternativo, uma outra forma de encenar e de dizer as mesmas coisas. Éramos de uma geração rebelde. Apenas contar o clássico, de forma certinha, não nos satisfazia”.

O trabalho era para transgredir os padrões, mesmo em montagens para criança. Afinal, tudo poderia ser contado de outra forma, mais criativa e antenada com seu tempo.

A busca pela inovação fez com que a DKV conquistasse visibilidade fora do estado. Instituições como a FUNARTE – Fundação Nacional de Arte, elogiou muito as inovações propostas.

A década de 90 começou marcando uma grande virada na carreira da produtora. Com “Pluft, o Fantasminha”, a companhia conquistou os principais prêmios no Troféu Gralha Azul. A audaciosa montagem trazia cenários e figurinos assinados por Rosa Magalhães, e direção de Edson Bueno.

Depois de uma retomada na parceria com Giovani Cesconeto, em 1994 Isidoro lança sua própria produtora, Isidoro Diniz Produções. A partir daquele momento, jogava todas suas fichas na produção.

Descobriu que sua paixão era ser um fazedor de teatro. “Todo o processo é apaixonante: começar a conhecer as pessoas, discutir o texto. É emocionante ver o resultado em cena depois. O grande lance do produtor é seduzir a parceria. Eles tem que acreditar no trabalho”.

Já no primeiro ano, a Isidoro Diniz Produções conquista grande sucesso com “Aristogatas”, dirigida por Paulinho Maia. Em dois meses e meio de apresentações, foram mais de 30 mil expectadores.

Nos anos seguintes, a atividade continuou em alta. Em 1995, “A Bela e A Fera”, também com Paulinho Maia na direção, lotou temporada no Teatro Fernanda Montenegro. No ano seguinte, “O Quebra Nozes” levou para os palcos a única montagem feita para teatro no Brasil do conhecido balé.

Ainda em 96, a produtora montou “O Arquiteto e o Imperador da Assíria”, de Fernando Arrabal. Foi a primeira produção assinada por Diniz para o teatro adulto.

“Este trabalho me deu o rumo do que eu queria fazer dentro do teatro adulto. É um texto que admite muita experimentação e, além disso, me trazia uma grande angústia... ao lê-lo, sentia que tinha que encená-lo. Questionava igreja, religião, família, política”.

Depois de montagens como “A Dama e o Vagabundo” e “Comédia da Vida Privada”, Diniz anunciou, em 1998, que faria sua última montagem de teatro infantil, com “A Pequena Sereia”.

A crise financeira do país chegava aos palcos, impiedosa.

“Num momento que produzíamos espetáculos grandiosos para os padrões locais, com equipe de mais de 30 pessoas, os patrocínios foram sumindo e os preços dos ingressos despencando...”, recorda. “Os recursos não eram suficientes. Estava revoltado por ter que parar, mas as produções de grandes espetáculos infantis foram ficando economicamente inviáveis”.

Ele lembra que o teatro infantil foi uma opção que a própria vida artística se encarregou de iniciá-lo. “Quando cheguei em Curitiba, tinha a visão de que um artista era simplesmente um trabalhador, assim como eu trabalhava na lavoura. Então comecei naquele segmento que me abriu as portas: o teatro infantil. Me realizei neste campo”.

Para comemorar seus 20 anos de carreira, dirige a produção de um CD de música brasileira: “Dalvaneios”, homenagem a Dalva de Oliveira gravada pela cantora curitibana Shiriz, também atriz e colega de palcos. Ator e diretor, lançava-se na área da música. Fruto da inquietação latente, mais uma vez.

Entre 1999 e 2003, dedicou quase que exclusivamente ao teatro adulto, com montagens como “Saudades do Sião” (1999), “Querelle” (2000), “Aristogatas”, retornando ao teatro infantil (2001), a ópera “A Voz do Sul” (2002) e o espetáculo experimental “A Melhor Parte do Homem” (2003).

Com “A Melhor Parte...”, em parceria com Giovana Soar, inicia os trabalhos com a Companhia Nossa Senhora do Teatro Contemporâneo. Mais uma vez, a busca pela experimentação e pela investigação dos caminhos do teatro norteia o projeto.

Em 2004, depois de uma aplaudida participação no Festival de Teatro de Curitiba com a montagem de “A Melhor Parte do Homem”, Isidoro Diniz comemora seus 25 anos de carreira buscando, novamente, inovar, reinventar sua própria história. Ele estréia numa das poucas funções que ainda não experimentou nos palcos: a de diretor. Será de Isidoro Diniz a direção da pocket ópera “A Solteirona e o Ladrão”, em cartaz no mês de julho no Teatro Regina Vogue.

“A ópera é uma forma de arte muito ligada ao tradicional... Mas como faz parte da minha natureza romper com o tradicional, então fatalmente isto vai acontecer”, brinca. “É um novo desafio. Uma experiência. Cada montagem é uma viagem diferente, e o diretor é quem comanda esta viagem. Carrega os atores para o abismo, induz à loucura”.

Segundo Isidoro Diniz, cada pedaço da sua feição artística vai entrar em cena. “Mostrarei prioritariamente minha visão de diretor. Mas o ator e o produtor também entrarão em cena”.

Mais uma vez:

“O que me move, ainda, é acreditar que posso descobrir alguma coisa nova no teatro”.
 
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